Como você lida com o sentimento de inveja? Se sente uma pessoa invejada? Se reconhece como alguém invejoso? Qual a linha que divide a inveja e a admiração? É justamente com essas indagações que irei iniciar o artigo de hoje, explorando os sentimentos de inveja e admiração à luz da filosofia e da psicanálise, posso contar com você minha querida leitora, meu caro leitor? Ótimo, então me acompanhe, por favor.
A inveja é um substantivo feminino. Etimologicamente, a palavra é de origem latina. Ela vem da palavra “invidere“, que significa “não ver”. A definição de inveja de acordo com o dicionário Oxford Languages é: “Desgosto provocado pela felicidade ou prosperidade alheia”. Platão é um dos ícones da filosofia grega V a. C e em sua obra intitulada A República já enfatizava que somos por essência sujeitos que buscam preencher a falta, Platão defendia que somos seres “desejantes” e isso se arrasta por toda a nossa vida e se torna insaciável projetando tal sentimento para outro desejo uma vez que o desejo anterior tenha sido conquistado, consumado, realizado. Você acredita que Platão tenha razão, se pensarmos na ambição de querer ter um carro X, trabalhamos duro para conquista-lo e assim que tal conquista se torna realidade, já almejamos outro carro (mesmo que tenhamos 60 prestações do carro atual), isso pode vir a ocorrer com o modelo de celular, com a roupa, com o cargo na empresa, com o corpo e sua definição, até mesmo com relações afetivas como em namoros… O personagem Don Juan na obra de Shakespeare retrata bem isso, um ‘galã’ conquistador que só vê “graça e entusiasmo” no processo de conquista, após ter conquistado perde seu interesse na mesma e busca outra.
Citei Platão, citei Shakespeare, e lhe pergunto: até que ponto faz sentido para você o que esses grandes nomes expuseram acerca da inveja? Freud , o pai fundador da psicanálise (área na qual atuo clinicando) afirma que o ego evita a dor não aceitando a própria realidade e dos resultados que nós obtemos de forma individual. Segundo Freud, nascemos com um instinto, aliás, vários instintos (que estão inseridos no que ele chama de ID), e o desejo está associado a tal instinto, também conhecido na psicanálise pelo termo: pulsão de vida. Uma vez que paramos de desejar, por exemplo, há uma mudança emocional à qual ele chama de pulsão de morte, estado no qual se perde o prazer pelas conquistas, pela vida que está por vir. Freud defende que o EGO que todos temos formados em nossa mente tem a finalidade de nos proteger, recalcando sentimentos que possam vir a nos fazer mal, tal como se comparar com outro e ver que não temos e nem somos reconhecidos como tal, isso geraria frustração, sentimento de inferioridade, de fracasso e é justamente aí que o EGO recalca, guarda, armazena no Inconsciente tal sentimento, mas nem sempre isso é efetivo, pois mesmo recalcando o desejo insatisfeito com a boa vontade de não nos frustrarmos, fica o sentimento de raiva, de ódio, de indignação, frutos da inveja que é extremamente oposta ao sentimento de admiração e da estratégia de modelagem advinda da PNL (programação neurolinguística).
Se temos admiração por uma pessoa, temos outro sentimento ao nos compararmos com ela e, se usarmos da habilidade da modelagem, podemos utilizarmos tal pessoa como um ‘modelo’ a ser “copiado” (como tal pessoa chegou onde chegou? Como ela age? Como ela reage? Como ela lida com as frustrações? Qual sua disciplina de vida? Qual seu círculo social? São algumas indagações que podemos nos fazer para que possamos fazer mudanças e aumentar as chances de “ser” como tal pessoa, conservando o sentimento de admiração.
O que você acha de entender a inveja como sendo o sentimento de não querer ter o que o outro tem, muito menos de ser reconhecido como tal pessoa, muito pelo contrário, seria a não aceitação do resultado e conquistas do outro, seria desejar não vê-lo naquele patamar e status, a inveja está muito mais enraizada para com pessoas próximas a nós, que de repente estudaram conosco e hoje estão com uma qualidade de vida muito superior do que a nossa e assim fica a indignação: “- Como pode tal sujeito, que era pobre igual a mim, tímida, tirava notas baixas, ia a pé à escola… Hoje ter esse sucesso todo com bens materiais e renome profissional, alto padrão de vida, corpo exemplar e uma bela família, sendo que eu era melhor que ele na escola, como pode isso?!”, dei apenas um exemplo lúdico de como a inveja anda de mãos dadas com a indignação e o sentimento de não querer aceitar a prosperidade do outro. Por vezes essa pessoa próspera é tanto quanto “solitária” se comparada com as que a invejam, que podem ser um grande grupo de pessoas que passam a prossegui-la com calúnias, injúrias e difamações almejando que ela perca tudo o que conseguiu e aí sim o grupo de invejosos passaria a ter uma “paz de espírito”, pois conseguiram tirar do topo e colocar esse sujeito invejado no chão derrubando-o e se alegrando com sua queda.
A partir do que expus acima, o que você entende como sendo inveja, admiração, indignação? Reconhece-se sendo o invejado ou o invejador? Grande abraço.