A mente humana é um vasto campo onde se inscrevem lembranças, experiências e afetos que moldam o sujeito ao longo da vida. No entanto, nem todas essas inscrições são benéficas ou conscientes. Muitas vezes, memórias tóxicas, associadas a traumas, humilhações, rejeições ou vivências reprimidas, permanecem alojadas no inconsciente, exercendo influência silenciosa sobre o comportamento, os sentimentos e as escolhas do indivíduo. A proposta de uma higienização mental do inconsciente, à luz da psicanálise, visa exatamente identificar, elaborar e ressignificar essas marcas que comprometem a saúde psíquica e a qualidade de vida. É com base nos atendimentos que venho fazendo em clínica e da demanda dos pacientes que hoje escrevo sobre essa temática e convido você minha querida leitora, meu caro leitor a me acompanhar nessa reflexão. Posso contar com sua companhia? Ótimo, então vamos lá.
Diferente de um “esquecimento forçado”, essa higienização não tem como objetivo apagar o passado, mas sim torná-lo consciente, elaborado e simbolizado. A psicanálise parte do princípio de que aquilo que é recalcado retorna de forma disfarçada em sintomas, repetições, angústias ou escolhas disfuncionais. Portanto, a única maneira efetiva de neutralizar os efeitos nocivos dessas memórias é possibilitar que elas venham à luz do discurso, da escuta clínica e da livre associação.
O processo envolve um mergulho cuidadoso no próprio psiquismo, onde o paciente, com o auxílio do analista, se depara com conteúdos inconscientes que ainda governam sua vida de forma imperceptível. Ao dar nome ao indizível, o sujeito retoma o domínio sobre si mesmo, resgatando sua autonomia emocional e reconstruindo sua narrativa pessoal sob novas bases simbólicas. Essa proposta de higienização não é rápida nem linear. Requer tempo, coragem e escuta empática. Mas seus efeitos são transformadores: reduz-se a carga de sofrimento psíquico, dissolvem-se culpas inconscientes, e abrem-se caminhos para relações mais saudáveis consigo e com o outro. Em um mundo marcado por excesso de estímulos e repressões silenciosas, cuidar da mente se torna ato revolucionário.
A psicanálise, nesse contexto, não cura no sentido médico tradicional, mas promove uma cura pela palavra, pela escuta e pela consciência. Higienizar o inconsciente é desatar os nós que nos prendem ao passado, para enfim viver o presente com liberdade psíquica. É um convite à libertação interna, não pela negação das dores, mas pelo enfrentamento lúcido delas, transformando memória em elaboração e dor em potência.
Thiago Pontes é filósofo e psicanalista, possui formações complementares como pós-graduação em Neuropsicologia e em Psiquiatria da infância e adolescência, além de formação em PNL (Programação Neurolinguística). É escritor com oito obras publicadas de maneira independentes. Possui um perfil profissional no Instagram: @prof_thiagopontes com todo seu material profissional incluindo entrevistas em diversas emissoras de rádio e TV.